Quarta-feira, Abril 09, 2008

O 'amola-tesouras'


Na foto uma presença cada vez mais rara, um amolador em Vila Real de Santo António, ou 'amola-tesouras' como é conhecido localmente.

Infelizmente a imagem não tem som. Mas o pregão melódico é rigorosamente o mesmo que se ouvia (ainda ouve?) em Lisboa não há muitos.

Terça-feira, Abril 08, 2008

Odiana

O nome Odiana em Vila Real de Santo António













Não esquecer também faz viver.
Há sempre quem não esquece, quem não deixa morrer.

Quarta-feira, Março 26, 2008

Água

O lago artificial da barragem de Odeleite, reservatório de água que abastece quase todo o Algarve. A Primavera está no princípio e o nível da água é elevado. Este ano não ouviremos falar em falta de água no Sul.

Segunda-feira, Março 03, 2008

Alcoutim


Lugar antigo, provavelmente estabelecido por aqueles que aportavam na margem enquando esperavam pela maré certa. A menos de 30km do mar, a maré fazia a diferença para os barcos que transportavam minério que era exportado para as cidades mediterrânicas.



Atualmente os barcos já não transportam minério, como no tempo dos visigodos, romanos ou árabes. Hoje são embarcações de turismo que cursam o Odiana entre o estuário e o Pomarão.



Alcoutim foi conquistada aos mouros em 1240 por D.Sancho II. As muralhas foram destruídas e provavelmente os seus habitantes foram expulsos.

D.Diniz mandou povoar a localidade em 1304 e reedificou o castelo. Este acontecimento inseriu-se num dos principais e mais bem conseguidos propósitos políticos do rei: erguer ou restaurar fortificações na raia e fixar a fronteira com Castela. O tratado de Alcanizes foi um marco nesta obra de D.Diniz, raramente referida.

A meio do rio, entre Alcoutim e San Lucar, foi assinada em 1371 a paz entre Fernando de Portugal e Henrique II de Castela. Hoje teria sido uma cerimónia de grande efeito cinematográfico.

Alcoutim no Livro das Fortalezas, desenho de Duarte das Armas, ca.1509.


No século XIX, a vida da pacata vila foi abalada pelos confrontos da guerra civil. Após a paz de Évora Monte, muitas forças miguelistas não aceitaram a capitulação e passaram a combater em guerrilhas. Conta-se que o Remexido, famoso chefe guerrilheiro algarvio, chegou a tomá-la, e que os seus homens incendiaram as casas dos apoiantes do novo regime liberal.


Em frente a Alcoutim está San Lucar, única vizinha e quase sempre amiga. Sendo localidades na linha de fronteira, foram ambas alvo de ataques militares do lado oposto nas disputas entre Portugal e Castela, primeiro, e Espanha, depois. Os mais graves ocorreram na Guerra da Restauração. As fortificações de San Lucar foram reforçadas em 1642 para fazer face à guerra com Portugal mas ainda assim a localidade foi tomada em 1666 e esteve por algum tempo ocupada pelas tropas portuguesas.

No mais, de tão isoladas, Alcoutim e San Lucar são sobretudo vilas gémeas unidas pelo rio e separadas pelas ligações administrativas das gentes.




Hoje Alcoutim continua a perder habitantes, apesar da atividade de construção que tem afetado a estética da vila e dos esforços para atrair investimento turístico e criar emprego.




Portas de Alcoutim; as antigas, do castelo medieval, e as novas, da internet.

No Sudeste Profundo

Imagens de uma região pouco conhecida e muito desabitada de Portugal, as profundezas do sudeste, entre o Alentejo e o Algarve. As fotos que seguem não refletem com verdade a beleza agreste da paisagem; culpa do fotógrafo. Já o silêncio que dá ilusão de intemporalidade e o cheiro do campo que prende à terra, esses parecem impossíveis de transpor para imagens.


Antes de São Pedro de Sólis, nos confins do concelho de Mértola.



O Vascão, a caminho do Odiana, separando o Alentejo do Algarve e quebrando o silêncio. No Verão o leito do rio poderá estar seco.



Já no Algarve, depois de Giões, concelho de Alcoutim. De novo o silêncio, a lonjura, o cheiro do campo agreste, e o calor de meio da tarde que vem do chão.

Sábado, Fevereiro 02, 2008

Há 100 Anos Um Drama Portguês - Consequências

Os acontecimentos que se seguiram imediatamente ao regicídio e as consequências funestas que deles resultaram foram obra dos monárquicos que se opunham à obra de modernização do Rei. Como se vai ver, D.Carlos morreu em vão.

D.Amélia afasta João Franco por um decreto de demissão assinado pelo seu filho, o agora Rei D.Manuel II. O novo governo é composto por uma coligação de 'acalmação' composta por ministros dos dois Partidos do rotativismo, os mesmos que protagonizaram o atoleiro político a que D.Carlos pusera fim. São afastados deste acordo todos os monárquicos que pudessem representar quebras de vícios antigos - regeneradores-liberais, dissidentes-progressistas, nacionalistas. Para Primeiro-Ministro é nomeado Ferreira do Amaral, não se conhecendo até hoje nada que este homem soubesse fazer de bom por Portugal.

O afastamento de João Franco e o regresso às formulas estafadas foram a derrota póstuma de D.Carlos, da sua força para empreender a mudança e da sua coragem para arcar com as dificuldades inerentes. É neste ato de fraqueza que o regime fica condenado, não no assassinato do Rei.

Os implicados na tentativa de golpe de 28 de Janeiro são amnistiados e libertados. O processo judicial do regicídio arrasta-se por medo de melindrar a sensibilidade dos republicanos. O que sobrou da Monarquia portuguesa está agora entregue aos costumeiros políticos incompetentes e sem coragem, gente que não assume divergências, nem roturas, nem mudanças que fazem avançar. Estes políticos e governantes têm apenas um objetivo e uma estratégia: manter-se à tona da vida política através do apaziguamento e da oferta de um braço amigo àqueles que se preparam para os derrubar.

Menos de três anos depois do regicídio um grupo de 400 carbonários sai para as ruas de Lisboa para proclamar a República. São tão poucos que em 24 horas o que sobra deles está entrincheirado na Rotunda. Mas o mais espantoso é que o Governo composto de tolos e incompetentes não tem sequer a habilidade de coordenar as forças militares que poderiam facilmente terminar com o que resta da tentativa de revolução. Em lugar disso, o Governo sugere ao Rei a fuga. O Governo desfalece, o Rei foge, o regime cai.

Nos quase 16 anos seguintes viver-se-á em Portugal um constante PREC: rebentamento de bombas, presos políticos, golpes de Estado sangrentos, tentativas de golpe de Estado, restrição da liberdade religiosa da maioria da população, jornais assaltados, edições suspensas, detenções ilegais executadas pelos carbonários à solta, sovas públicas ministradas pelos mesmos carbonários à solta, farsas eleitorais, fortunas rápidas e filhas da política, emigração massiva e com níveis nunca antes alcançados, assassinatos políticos, carne para canhão nas trincheiras de França, desfalques, ostracização dos não apaniguados, 50 governos e 8 presidentes da República. O naufrágio da magia republicana e seus magos acabará numa ditadura militar.

Tivesse a obra de D.Carlos vingado e não teríamos tido 16 anos de caos social e político da I República. Da I República resulta a II República, uma branda ditadura católica com os seus últimos 30 anos de desencontro com a história. Da II República resultaram os anos iniciais de profunda destruição da economia desta III República. O Portugal que podia ter acompanhado a modernidade a par da Grã-Bretanha, acaba por tropeçar nas convulsões e intolerâncias da Europa central e do sul.


Os documentos do processo de judicial de investigação do regicídio estavam no Ministério da Justiça em 5 de Outubro de 1910. Afonso Costa foi Ministro da Justiça logo após a instauração da República. Depois disso nada mais se soube desses documentos tendo sido considerados extraviados. Era esta a qualidade dos estadistas do novo regime.

O assassinato de D.Carlos nunca foi julgado.

Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008

Há 100 Anos Um Drama Português - Como Foi

Os regimes caem porque não são capazes de mudar por dentro. Nem sempre a queda de um regime, por defeitos que tenha, resulta num regime melhor. A história que se segue é um drama português e teve consequências no atraso de Portugal que ainda hoje sentimos.


Há 100 anos dois homens embuídos de uma fé poderosa em promessas de amanhãs de progresso e felicidade lançam-se sobre a carruagem do Rei D.Carlos mantando-o e matando o Principe Real, D.Luiz Filipe. Vão numa missão de morte que sabem que também os inclui. Um gesto assassino é a forma que encontram para dar sentido a vidas vazias, exorcizar frustrações, extravazar ideais carregados de fanatismo, alcançar notorieades de outro modo impossíveis. Estes matadores foram a mão de gente bem posta. Em tudo os ingredientes dos suicidas políticos dos tempos modernos.

Em 1906 a Monarquia portuguesa está num marasmo político. Alternam no poder dois Partidos – o Partido Regenerador e o Partido Progressista - com chefes eloquentes mas tíbios, competindo pelo poder de gerir teias de interesses na distribuição de cargos públicos e favores económicos.

Emergem deste marasmo três Partidos que assumem posições de rotura. O Partido Regenerador-Liberal, de João Franco, o Partido da Dissidência Progressista, de José de Alpoim, ambos monárquicos, e o Partido Republicano. Os republicanos vão mais longe que os outros no levantar dos ânimos: eles conhecem e divulgam um passe de magia que salvará a Pátria: substituir a Monarquia pela República.

O Rei D.Carlos percebe que manter o marasmo é alargar o espaço político destes magos e opta pela mudança. Há eleições em Agosto de 1906 e delas resulta uma maioria e um acordo político entre o Rei, João Franco e Luciano de Castro, o chefe dos Progressistas. É nomeado para Primeiro-Ministro João Franco, um homem que já se destacara pela sua frontalidade e coragem. Mas os Progressistas rompem o acordo e João Franco apresenta a demissão ao Rei dado que nenhuma das suas reformas consegue ser aprovada no Parlamento. O Rei não cede. Em Maio de 1907 dissolve o Parlamento e manda preparar novas eleições. Em Dezembro de 1907 o Rei marca as eleições para Abril de 1908. João Franco governa há sete meses sem o Parlamento e pelo calendário eleitoral ainda governaria mais quatro meses dessa forma, pelo que as oposições o qualificam de ditador.

Sobe então a ira das oposições monárquicas e republicanas contra o Rei e o Primeiro-Ministro. É certo que era comum um Primeiro-Ministro governar com o Parlamento fechado no intervalo das sessões parlamentares, mas desta vez pressente-se que das eleições resultará um terramoto político. Os Partidos do rotativismo odeiam João Franco porque ele vai por fim a um equilíbrio e a redes clientelares de interesses que duram há décadas. Alpoim e o seu Partido da Dissisdência Progressista odeiam João Franco porque queriam ter sido eles os escolhidos pelo Rei para protagonizar a mudança. O Partido Republicano odeia João Franco porque João Franco representa a mudança pela reforma, e se o país muda dentro do Regime pela ação conjunta do Rei e de João Franco, então fica esvaziada a necessidade de mudar pela instauração da uma República. Por extensão, quem não gosta de João Franco agora também não gosta de D.Carlos, pelo menos enquanto João Franco for o seu Primeiro-Ministro.Os monárquicos de Alpoim e os republicanos querem evitar as eleições e conluem-se para uma revolta. Alpoim imagina derrubar João Franco, depor D.Carlos e ser Primeiro-Ministro de D.Luiz, que subiria ao trono.

Os monárquicos financiam a compra de armamento, os republicanos preparam a revolta e arregimentam os civis que a executará. Os preparativos já vão adiantados quando os republicanos informam Alpoim que do golpe resultará a proclmação da República, e não a aclamação de um novo Rei. Para os monárquicos envolvidos é tarde para arrependimentos.

A 28 de Janeiro de 1908, data da revolução, tudo falha. Alpoim foge para Espanha mas os outros cabecilhas monárquicos e republicanos envolvidos na manobra golpista estão presos. Trata-se de mais um golpe tentado pelos republicanos, desta vez com eleições marcadas. O Rei assina em Vila Viçosa o decreto da deportação dos golpistas para as Colónias.

No recaldo emotivo do falhanço há muita raiva e frustração por superar. Entre quem não está detido é decidido um golpe capital no Regime: assassinar o Rei e se possível também João Franco. No dia 1 de Fevereiro de 1908 um grupo de cinco carbonários vai cumprir a missão, mas só dois deles vão embuídos no espírito de sacrificar a própria vida. Na parte da manhã ainda procuram João Franco, mas não o encontram. Resta o Rei que regressa à tarde de Vila Viçosa.

O Rei, que antecipara o seu regresso a Lisboa, chega ao Terreiro do Paço pouco depois das 5. A tentativa de golpe de Estado fora há três dias e há quem ainda tema loucuras. D.Carlos não quer que o povo lhe veja medo e recusa ir de automóvel onde estaria mais seguro por ser fechado e mais veloz. A família real sobe para um landau e segue para o Palácio das Necessidades. D.Carlos, D.Amélia, D.Luiz e D.Manuel estão a descoberto e numa posição isolada, são agora um alvo fácil para qualquer atirador. Ainda a meio do Terreiro do Paço, junto às colunas do lado poente, os dois suicidas aproximam-se da carruagem e matam.

O Rei paga a audácia com a própria vida e com a vida do Principe Real, Luiz Filipe.Os republicanos tinham morto o Rei, mas não tinham conseguido acabar com a Monarquia. Para isso terão de esperar mais algum tempo e contar com a inestimável e preciosa ajuda dos próprios monárquicos.


O post já vai longo e ainda nem chegámos ao mais importante, isto é, os acontecimentos políticos que se seguiram ao regicídio e as consequências que deles resultaram a prazo. Fica para amanhã.

Terça-feira, Janeiro 22, 2008

Reminiscências de Portugal em Huelva

Para lá do Odiana, na província espanhola de Huelva, há um legado português desconhecido: alguns vocábulos portugueses, os melhores mareantes de Espanha, e o nome de um rio, o Odiel.



A província espanhola de Huelva faz fronteira com Portugal no extremo sul. A cidade de Huelva fica a 50km da fronteira portuguesa. Existem nesta província reminiscências de Portugal geralmente ignoradas.

Na região de Huelva estão presentes no falar das gentes palavras únicas que não são usadas em mais nenhum lugar de Espanha. Tratam-se de palavras portuguesas, apesar tal facto ser geralmente ignorado pelos seus próprios falantes e por outros espanhóis que as tomam por localismos.

Os exemplos mais significativos são:
(localismo/portuguesismo ; palavra correspondente em Espanhol)
Abanador ; Sopillo
Cincho ; Ensella
Cotovia ; Cotojada
Fechar ; Cerrar
Fechadura ; Cerradura
Tojo ; Aulaga

Mas o mais interessante e curioso dos lusismos de Huelva é nome de rio: Odiel. O rio Odiel nasce na serra de Aracena e desagua na ria de Huelva. Esta designação atribuída a um rio é estranha à Língua castelhana. É consensual que se trata de um lusismo, pois é na Língua portuguesa que os rios cujo nome tem origem árabe começa por Od ou Odi.


Vejamos qual a razão para estes lusismos, qual a sua origem.


Um Povo e uma Língua Comuns

Antes da reconquista cristã alcançar o Sul, pensa-se que os habitantes do Algarve e os da costa de Huelva pertenceram ao mesmo grupo populacional e cultural. Os pescadores e outros mareantes da costa de Huelva partilhavam artes de pesca e de navegação com os homens do mar algarvios. Partilhariam, necessariamente, a mesma Língua, o Galaico-Lusitano. A formação da designação Odiel a partir do árabe ainda antes da presença portuguesa no Sul parece comprovar esta teoria.

Ao contrário do que por vezes se interpreta, a língua árabe nunca chegou a ser língua materna da população autóctone da península, nem sequer no Sul. No tempo da ocupação moura, o árabe era usado de modo limitado pelos povos apenas nas necessidades de contatos administrativos com o poder muçulmano, ainda que tivessem sido incorporados vários vocábulos. A Língua usada pelas populações de toda a faixa atlântica da península era o Galaico-Lusitano, surgido a partir do Latim Vulgar.


A Separação

Durante a reconquista cristã, Portugal e Leão, e depois Castela, competem pela definição da fronteira comum à medida que vão expulsando os mouros para Sul. A pressão portuguesa sobre a Andaluzia ocidental, a margem esquerda do Odiana, foi sempre notória. Até D.Afonso III, todos os reis portugueses participaram ou ordenaram incursões militares na zona e controlaram algum território. D.Sancho I chegou a estar às portas de Sevilha.

Os castelhanos tentaram sempre remeter a fronteira com Portugal para as margens do Odiana. Essa seria uma forma mais segura de conter as veleidades militares de um vizinho que ao tempo era poderoso. Conseguiram parcialmente esse objetivo em 1297, pelo Tratado de Alcanizes, quando as últimas localidades portuguesas na Andaluzia, Arouche (esp.Aroche), Aracena e Aiamonte, foram cedidas a Castela.


Os Melhores Mareantes de Espanha

No início da expansão marítima de Espanha, os seus governantes procuraram homens que se equiparassem aos marinheiros portugueses. Foram encontrá-los às portas de Portugal, na costa de Huelva. Esses homens eram reconhecidos como os mais aptos de Espanha, os únicos que partilhavam as aptidões e qualidades marítimas dos portugueses seus vizinhos.

Não por acaso Colombo vai recrutar na costa de Huelva os marinheiros que o hão-de acompanhar na travessia do Atlântico em busca da Índia.



Para lá do Odiana, na província espanhola de Huelva, há um legado português desconhecido: alguns vocábulos portugueses, os melhores mareantes de Espanha, e o nome de um rio, o Odiel.

Quarta-feira, Dezembro 19, 2007

O Dia das Prendas

O Natal mudou. Hoje é cada vez mais a Festa das Prendas, o Dia da Prendas. O Natal cristão está em retrocesso, mesmo entre os cristãos ou as famílias cristãs quer o sejam por convicção, quer o sejam por tradição cultural.

O Dia de Natal cristão sobreviveu ao Dia da Família do Positivismo e ao Dia da Árvore do Comunismo. Mas parece que desta vez sucumbe a uma não-ideologia, sucumbe ao consumismo: a verdade é que o Dia de Natal deu lugar ao Dia das Prendas.

A nossa sociedade criou em quase todos uma postura de insatisfação material. Quase todos acham que serão mais felizes se em vez de um automóvel TDI tiverem um TDI Special. Ou se em vez da PSP2 tiverem a PSP3. Uns, depois de terem o TDI Special rapidamente quererão o TDI Super Special. E os que agora tremem de emoção com a PSP3 ? Espere-se um ano, e em breve ansiarão emocionados pela PSP4 como antes tinham ansiado pela 3, que agora é olhada como uma velharia tolerada enquanto não vem a nova possivelmente embrulhada em papel de Natal e com lacinho de prenda.

Ora, ainda bem que existem os TDI Special e as PSP3. E também ainda bem que mais tarde ou mais cedo chegam os TDI Super Special e as PSP4. Mas no fundo, bem lá no fundo, o ter mais um objeto que vem substituir outro, que em breve se quererá substituir por outro, é coisa que só pode satisfazer os tolos.

No consumismo dominante, o objeto, desde que novo, assume um valor que o aproxima da divinização.

O Dia das Prendas não é fruto da celebração da Natureza, nem de uma fé ou cultura religiosa, nem de uma crença ou construção político-ideológica. O Dia das Prendas é um fruto do consumismo levado ao extremo da insanidade pessoal e social.

O Dia das Prendas é deprimente.

O Dia das Prendas oferece aquele espetáculo triste que se generalizou há uns anos e que acontece às 00 horas: toda a gente se lança sobre os objetos novos, aqueles que, supostamente, trarão a felicidade. Com ‘felicidades’ destas, quem precisa de ‘Meninos Jesus’?

Por mim, fico-me satisfeito com as prendas que o Pai Natal deixa na chaminé de madrugada e que só se vêm na manhã de 25. A meia-noite de 24 para 25 é mesmo só para comemorar o nascimento do Menino Jesus. Esse não falha, nem desilude, nem precisa de substituto.

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Os Portugueses Vistos pelos Outros

Em 1836, Charles Napier (1796-1860) publica em Londres ‘An Account of the War Between Don Pedro and Don Miguel’. Tratava-se do relato, na primeira pessoa, da Guerra Civil portuguesa de 1832-34. O autor, oficial da Marinha Britânica, fora um dos vários oficiais estrangeiros intervenientes na guerra, no caso ao lado dos liberais.

O livro tem particular interesse pelo facto de conter várias referências ao caráter dos portugueses à luz da percepção de um militar estrangeiro de repente envolvido no ambiente de intriga e de jogos de poder no seio de uma das fações da guerra civil. De tempos a tempos iremos colocar no blog algumas passagens mais relevantes dessas observações.


O relato de Napier foi publicado pela primeira vez em Portugal em 1841 numa tradução de Manuel Joaquim Pedro Codina, reconhecidamente liberal. O tradutor não se exime de colocar várias notas na edição portuguesa, algumas bastante críticas em relação às apreciações de Napier, sobretudo quando ele aponta as faltas de caráter ou outras de alguns políticos e governantes liberais.
A obra foi reeditada em 2005 pela Caleidoscópio sob o título 'A Guerra da Sucessão Entre D.Pedro e D.Miguel'. Mantém-se a tradução original do Codina e respetivas notas, mas traz agora uma importante introdução de António Ventura constituída por uma nota biográfica muito completa de Charles Napier e pelo enquadramento histórico do seu relato. António Ventura admite a existência de alguns erros na tradução de Codina mas, infelizmente, opta por mantê-la ou pelo menos por não os evidenciar.

Milhares de mercenários estrangeiros participaram nas Guerras Civis portuguesas do século 19. A guerra de 1832-34 foi talvez aquela em que essa participação foi mais relevante. Napier, um oficial da Marinha britânica de reconhecido mérito, é contratado nessa circunstância pela fação liberal.

Em Junho de 1933, com 37 anos, Charles Napier desembarca no Porto, então sob ocupação das tropas liberais vindas dos Açores, cercadas por terra pelas tropas miguelistas. D.Pedro nomeia-o comandante-em-chefe da esquadra liberal.O desempenho Napier na guerra foi notável, mas merece especial destaque o papel que teve no comando e vitória da esquadra liberal sobre a esquadra miguelista no Cabo de São Vicente, logo no mês seguinte ao da sua entrada ao serviço. O curso da guerra mudou após esta manobra naval bem sucedida, e as tropas liberais puderam avançar sobre Lisboa a partir do Algarve, alterando definitivamente o pendor da guerra.
Ainda decorria o conflito quando Charles Napier foi nomeado diretor do Arsenal da Marinha com a incumbência de reestruturar e modernizar este estabelecimento militar. Os entraves colocados à sua ação tanto pelos funcionários do Arsenal como pelos seus inimigos no novo Governo agora instalado em Lisboa impediram-no de cumprir a tarefa. A sua desilusão aumentou pelo facto de nunca ter chegado a receber a quantia prometida pela sua participação na guerra, afinal sorte semelhante à de tantos mercenários que combateram em Portugal. Ainda assim, nunca renegou a sua amizade e admiração por D.Pedro, Palmela e Saldanha. Abandonou Portugal e os seus cargos na Marinha portuguesa logo após a morte de D.Pedro IV, em 1834, com o título de Conde do Cabo de São Vicente.

Charles Napier entrou para a Marinha britânica como voluntário aos 13 anos. Ao longo da sua carreira militar destacou-se em ações de guerra, progredindo rapidamente na hierarquia naval. Já como oficial, comandou importantes vitórias navais para a Grã-Bretanha. Esteve suspenso da Marinha entre 1834 e 36 por ter participado ilegalmente no conflito português. Terminou a carreira militar como Almirante. A sua vida não se restrigiu à Marinha de guerra, foi também deputado ao Parlamento. Era conhecido popularmente por Mad Charley em resultado da sua coragem e imprevisibilidade.

O texto acima baseia-se no próprio livro com especial destaque para o notável trabalho introdutório de António Ventura na obra exposta.

Segunda-feira, Outubro 22, 2007

A União Europeias Faz Falta a Quem?

Em ressaca de euro-euforia do 'Acordo de Lisboa', uma reflexão. Existem na Europa alguns países que não querem pertencer à União Europeia: Islândia, Liechenstein, Noruega e a Suíça. Os três primeiros pertencem ao EEE, Espaço Económico Europeu (EEA, European Economic Area).





Islândia, Noruega e Suíça rejeitaram em referendo a entrada na UE. O povo suíço rejeitou também a adesão ao EEE embora os acordos políticos e comerciais entre a Suíça e a UE deixem o país numa situação equiparável à de membro do EEE. O Liechenstein é um pequeno principado largamente integrado na economia suiça que aderiu por decisão política ao EEE.

O EEE é um Espaço económico pouco divulgado. É composto pelos 27 Estados membros da UE e ainda pelos 3 países referidos acima. De algum modo pode-se considerar a Suiça como um membro adicional informal do EEE dada o alto nível de integração alcançado. O EEE consiste num espaço europeu de liberdade de circulação de pessoas, bens, serviços e capitais, os quatro pilares da integração social e económica da Europa, em que todos os 30 (27+3) Estados membros partilham as vantagens e as obrigações decorrentes desta integração. No entanto, apenas os 27 Estados membros da UE estão obrigados a obedecer às diretivas estritamente políticas e judiciais da UE.

Existem várias razões que fundamentam a recusa da Islândia, Liechentein, Noruega e Suíça em integrar a UE:
-a UE não fortalece a democracia na Europa;
-a UE significa o exercício pouco transparente de Poder da Comissão Europeia e das suas inúmeras Agências;
-a UE é um projeto político caro, implicando o desvio de fundos públicos para alimentar instiuições políticas e uma burocracia pesada e de vantagens duvidosas;
-a UE serve para projetar e favorecer o poder económico alemão e o que resta do poder político francês sobre o resto da Europa e partir dela sobre o mundo.

Existem ainda motivações positivas para estes povos pretenderem manter-se como Estados Livres europeus:
-a associação livre entre os Estados europeus funciona bem e os benefícios políticos e económicos de pertencer a este Espaço Económico são superiores aos respetivos custos;
-os Estados associados ecomomicamente à EU não são obrigados a entregar os seus impostos e bens económicos naturais a critérios eurocráticos;
-estes Estados mantêm a sua independência não estando a sua posição internacional submetida a decisões ou vontades estranhas aos seus próprios interesses.

Um dos casos mais lamentáveis de dissipação de um bem económico de um Estado membro em benefício de outrem aconteceu com Portugal. A ZEE marítima portuguesa é a maior da Europa; no entanto, ela é usufruída sobretudo por Empresas pesqueiras espanholas. O mar e a indústria da pesca poderiam ter um papel relevantíssimo na economia portuguesa, sobretudo numa época em que a pescado se torna cada vez mais um bem escasso. A entrega desse recurso aos critérios da eurocracia, a indiferença dos sucessivos Governos portugueses quanto a esta matéria, o facto consumado e a resignação conduziram-nos a este ponto.

É interessante comparar a postura portuguesa com a norueguesa. A Noruega detém importantes recursos petrolíferos na sua ZEE no Mar do Norte. Uma das razões da recusa dos noruegueses em aderir à UE baseia-se na pretensão de manter esses recursos sob controlo do país. A extração de petróleo é certamente mais rentável que a indústria pesqueira, mas inevitavelmente é válida a comparação da atitude dos dois países sobre as suas riquezas naturais e o resultado consequente.
Islândia, Liechestein, Noruega e Suíça fazem o seu percurso de nações independentes e economicamente saudáveis recorrendo apenas às suas vantagens diferenciais e à cooperação política e económica privilegiada com o resto da Europa. Não precisam da componente federalista da UE para viverem em harmonia consigo mesmos, com o resto da Europa e com o mundo e para progredirem social e economicamente.Daqui resulta a questão essencial: afinal, para além dos políticos, dos eurocratas e de algumas pessoas e entidades que prosperam em seu redor, como Empresas de consultoria e setores privilegiados do jornalismo, quem precisa da UE tal como ela se desenha hoje?

Quinta-feira, Outubro 11, 2007

'A Revolução Liberal - Os Devoristas'

Saiu em Julho uma reedição de ‘A Revolução Liberal – Os Devoristas’ de Vasco Pulido Valente. A 1a edição é de 1993. Foi reeditado em Maio deste ano mas a procura obrigou a esta 3a edição.

Trata-se de uma descrição desencantada dos factos políticos após o triunfo definitivo do Liberalismo em 1834. A leitura deste livro ajuda a perceber que o Portugal corrupto, palavroso e imbecil não começou há 30 anos como muitos pensam. Os homens e as questiúnculas da década de 1830 podiam ser os de hoje.


A escrita inconfundível de VPV ajuda muito a que o livro seja percorrido do início ao fim em pouco tempo e com muito prazer. A história é relatada não no passado mas no presente. VPV tem essa qualidade como historiador, os acontecimentos históricos não nos aparecem como factos abstratos, inconcebíveis à luz do presente. Bem pelo contrário, ao ler VPV fica evidente que a tecnologia pode ter mudado muito nos últimos 200 anos, mas o ser humano não mudou assim tanto. Há 6 gerações atrás nós, portugueses, não éramos tão diferentes de hoje quanto possamos pensar.

Uma observação final ainda em período de aniversário de 5 de Outubro. Da leitura deste livro podemos perceber que a base social de apoio da corrente mais à esquerda do liberalismo português, o ‘irracionalismo’, era constituída pela pequena burguesia lisboeta, pelos inúmeros pequenos lojistas e manufatureiros de Lisboa e seus empregados. A esta camada social VPV chama a ‘plebe urbana’. Interessante é que serão os netos destes homens que apoiarão e serão o sustentáculo da revolução republicana, 70 anos depois. Estes herdaram dos avós a ocupação, o pequeno estabelecimento comercial ou industrial, o desprezo revoltado pelos nobilitados e instalados. Infelizmente herdaram também a intolerância e a incapacidade de entender Portugal como algo maior do que a rua ou o bairro da sua tasca ou ferraria.

Sexta-feira, Outubro 05, 2007

O 5 de Outubro

Em 5 de Outubro de 1910 uma revolução impõe a República pela força. A forma de chefia de Estado mantém-se mas o regime implantado nessa data, conhecido por I República, durou apenas 15 anos.

Para o português comum a I República constituiu sobretudo um liberticídio; a liberdade de um cidadão na Monarquia liberal era maior do que a liberdade de um cidadão da I República. A isto acresceu o caos social e político que percorreu todo o Regime com dezenas de Governos e vários golpes de Estado e tentativas de golpe.

A I República é hoje um mito em retrocesso porque a verdade acaba sempre por prevalecer. O mito é iniciado logo no pós 5 de Outubro. A este respeito, veja-se o postal abaixo publicado na época:
Entre outros episódios retratados nesse postal está a proclamação de República na Praça do Municipio em Lisboa. A praça é representada cheia de povo.No entanto, na foto seguinte pode ver-se a verdadeira imagem da Praça do Município nessa manhã de 5 de Outubro de 1910:


A praça está longe de se poder considerar meio cheia, ao contrário da imagética da propaganda.

Na foto que segue pode ver-se José Relvas na varanda do edifício da Câmara proclamando a República na tal Praça do Município:

Esta foto é famosa, encontra-se por toda a parte. Foi até estilizada por várias vezes. No entanto repare-se que esta foto não está completa, foi cortada.

Abaixo pode ver uma foto obtida na mesma ocasião, mas esta está completa, não está cortada:


Nela se percebe que afinal José Relvas proclamou a República a um pequeno ajuntamento de lisboetas, ao contrário da multidão referida na propaganda. Os presentes na Praça no momento da proclamação eram ainda menos do que os da fotografada na foto da Praça mais acima, obtida depois desta.

O mito suportado pela obra de ocultação da verdade e da propaganda está muito aquém da realidade.

Sejamos monárquicos ou republicanos, pouco importa conquanto possamos mudar Regimes e Governos pelo voto. Mas importa que não sejamos alegres trauteadores de mentiras. Importa que não aceitemos que políticos e propagandistas nos mintam. Importa também que uma certa gente saiba que não somos estúpidos ou, pelo menos, que não somos todos estúpidos.

Terça-feira, Outubro 02, 2007

Vila Real de Santo António e a Chuva

Uma trovoada memorável, uma hora de chuva intensa, uma inundação.

Sexta-feira, Setembro 21, 2007

Odiana vs Guadiana

A origem mais antiga da designação do rio Odiana, ou Guadiana, é latina; os romanos chamaram-lhe rio Annas.

Com a invasão árabe, muitos rios do sul da península tiveram o seu nome alterado pela anteposição da palavra ‘uad’, termo árabe que significa ‘rio’.

Foi o que aconteceu com o rio Annas que passou a ser chamado uad Annas, ou uad Ana. Estas novas designações entraram no uso das populações locais.

Depois disso a anteposição ‘uad’ evoluiu de forma diferente nas línguas neo-latinas da península. Nos dialetos galaico-lusitanos, falados em toda a faixa atlântica, passou a ‘od’, ‘ode’, ou ‘odi’; por sua vez em castelhano passou a ‘guad’ ou ‘guadi’. Esta é a razão porque vários rios e localidades do sul de Portugal começam por ‘od’, tais como Odivelas, Odeleite, Odiáxere. Acontece o mesmo no sul de Espanha, por exemplo, com Guadalquivir, Guadalete, Guadarrama.

O uad Ana não escapou a esta regra. Em Espanha evoluiu para Guadiana, em Portugal para Odiana.

Vejamos então o que fez com que os portugueses esquecessem o nome original do Odiana e hoje o conheçam apenas pelo seu nome espanhol, Guadiana.

Até pelo menos 1580, o Guadiana era oficialmente designado Odiana em Portugal e popularmente conhecido assim. Durante o período dos Filipes, a administração portuguesa impôs a designação Guadiana a Portugal de modo a torná-la uniforme com a designação espanhola do rio. Após a deposição da monarquia estrangeira a designação portuguesa nunca foi reposta. Com o tempo, também o povo foi trocando o nome ao rio acabando por consolidar a mudança.

O uso de Guadiana em lugar de Odiana é um resquício da presença espanhola em Portugal. Infelizmente é também um símbolo de falta de brio nacional. Até quando deixarmos que seja assim.