
Quarta-feira, Abril 09, 2008
O 'amola-tesouras'

Terça-feira, Abril 08, 2008
Odiana
Quarta-feira, Março 26, 2008
Água
Segunda-feira, Março 03, 2008
Alcoutim
(origem da foto acima)Lugar antigo, provavelmente estabelecido por aqueles que aportavam na margem enquando esperavam pela maré. A menos de 30km do mar, a maré cheia fazia a diferença para os barcos carregados de minério exportado para as cidades mediterrânicas da Antiguidade.
Atualmente os barcos já não transportam minério, como no tempo dos visigodos, romanos ou árabes. Hoje são as embarcações de turismo que cursam o Odiana entre o estuário e o Pomarão.
Alcoutim foi conquistada aos mouros em 1240 por D.Sancho II. As muralhas foram destruídas e provavelmente os seus habitantes foram expulsos.
D.Diniz mandou repovoar a localidade em 1304 e reedificou o castelo. Este acontecimento inseriu-se num dos principais e mais bem conseguidos propósitos políticos do rei: erguer ou restaurar fortificações na raia e fixar a fronteira com Castela. O tratado de Alcanizes foi um marco nesta obra de D.Diniz, raramente referida.
A meio do rio, entre Alcoutim e San Lucar, foi assinada em 1371 a paz entre Fernando de Portugal e Henrique II de Castela. Hoje teria sido uma cerimónia de grande efeito cinematográfico.
Alcoutim no Livro das Fortalezas, desenho de Duarte das Armas, ca.1509.No século XIX, a vida da pacata vila foi abalada pelos confrontos da guerra civil. Após a paz de Évora Monte, muitas forças miguelistas não aceitaram a capitulação e passaram a combater em guerrilhas. Conta-se que o Remexido, famoso chefe guerrilheiro algarvio, chegou a tomá-la, e que os seus homens incendiaram as casas dos apoiantes do novo regime liberal.
Em frente a Alcoutim fica San Lucar, única vizinha e quase sempre amiga. Sendo localidades na linha de fronteira, foram ambas alvo de ataques militares do lado oposto nas disputas entre Portugal e Castela, primeiro, e Espanha, depois. Os mais graves ocorreram na Guerra da Restauração. As fortificações de San Lucar foram reforçadas em 1642 para fazer face à guerra com Portugal mas ainda assim a localidade foi tomada em 1666 e esteve ocupada pelas tropas portuguesas.
No mais, de tão isoladas, Alcoutim e San Lucar são sobretudo vilas gémeas unidas pelo rio e separadas pelas ligações administrativas das gentes.
Hoje Alcoutim continua a perder habitantes, apesar da atividade de construção que tem afetado a estética da vila e dos esforços para atrair investimento turístico e criar emprego.
Portas de Alcoutim; as antigas, do castelo medieval, e as novas, da internet.
No Sudeste Profundo
Antes de São Pedro de Sólis, nos confins do concelho de Mértola.
O Vascão, a caminho do Odiana, separando o Alentejo do Algarve e quebrando o silêncio. No Verão o leito do rio poderá estar seco.
Já no Algarve, depois de Giões, concelho de Alcoutim. De novo o silêncio, a lonjura, o cheiro do campo agreste, e o calor de meio da tarde que vem do chão.
Sábado, Fevereiro 02, 2008
Há 100 Anos Um Drama Português - Consequências
Os acontecimentos que se seguiram imediatamente ao regicídio e as consequências funestas que deles resultaram foram obra dos monárquicos que se opunham à obra de modernização do Rei. Como se vai ver, D.Carlos morreu em vão.D.Amélia afasta João Franco por um decreto de demissão assinado pelo seu filho, o agora Rei D.Manuel II. O novo governo é composto por uma coligação de 'acalmação' composta por ministros dos dois Partidos do rotativismo, os mesmos que protagonizaram o atoleiro político a que D.Carlos pusera fim. São afastados deste acordo todos os monárquicos que pudessem representar quebras de vícios antigos - regeneradores-liberais, dissidentes-progressistas, nacionalistas. Para Primeiro-Ministro é nomeado Ferreira do Amaral, não se conhecendo até hoje nada que este homem soubesse fazer de bom por Portugal.
O afastamento de João Franco e o regresso às formulas estafadas foram a derrota póstuma de D.Carlos, da sua força para empreender a mudança e da sua coragem para arcar com as dificuldades inerentes. É neste ato de fraqueza que o regime fica condenado, não no assassinato do Rei.
Os implicados na tentativa de golpe de 28 de Janeiro são amnistiados e libertados. O processo judicial do regicídio arrasta-se por medo de melindrar a sensibilidade dos republicanos. O que sobrou da Monarquia portuguesa está agora entregue aos costumeiros políticos incompetentes e sem coragem, gente que não assume divergências, nem roturas, nem mudanças que fazem avançar. Estes políticos e governantes têm apenas um objetivo e uma estratégia: manter-se à tona da vida política através do apaziguamento e da oferta de um braço amigo àqueles que se preparam para os derrubar.
Menos de três anos depois do regicídio um grupo de 400 carbonários sai para as ruas de Lisboa para proclamar a República. São tão poucos que em 24 horas o que sobra deles está entrincheirado na Rotunda. Mas o mais espantoso é que o Governo composto de tolos e incompetentes não tem sequer a habilidade de coordenar as forças militares que poderiam facilmente terminar com o que resta da tentativa de revolução. Em lugar disso, o Governo sugere ao Rei a fuga. O Governo desfalece, o Rei foge, o regime cai.
Nos quase 16 anos seguintes viver-se-á em Portugal um constante PREC: rebentamento de bombas, presos políticos, golpes de Estado sangrentos, tentativas de golpe de Estado, restrição da liberdade religiosa da maioria da população, jornais assaltados, edições suspensas, detenções ilegais executadas pelos carbonários à solta, sovas públicas ministradas pelos mesmos carbonários à solta, farsas eleitorais, fortunas rápidas e filhas da política, emigração massiva e com níveis nunca antes alcançados, assassinatos políticos, carne para canhão nas trincheiras de França, desfalques, ostracização dos não apaniguados, 50 governos e 8 presidentes da República. O naufrágio da magia republicana e seus magos acabará numa ditadura militar.
Tivesse a obra de D.Carlos vingado e não teríamos tido 16 anos de caos social e político da I República. Da I República resulta a II República, uma branda ditadura católica com os seus últimos 30 anos de desencontro com a história. Da II República resultaram os anos iniciais de profunda destruição da economia desta III República. O Portugal que podia ter acompanhado a modernidade a par da Grã-Bretanha, acaba por tropeçar nas convulsões e intolerâncias da Europa central e do sul.
Os documentos do processo de judicial de investigação do regicídio estavam no Ministério da Justiça em 5 de Outubro de 1910. Afonso Costa foi Ministro da Justiça logo após a instauração da República. Depois disso nada mais se soube desses documentos tendo sido considerados extraviados. Era esta a qualidade dos estadistas do novo regime.
O assassinato de D.Carlos nunca foi julgado.
Sexta-feira, Fevereiro 01, 2008
Há 100 Anos Um Drama Português - Como Foi
Os regimes caem porque não são capazes de mudar por dentro. Nem sempre a queda de um regime, por defeitos que tenha, resulta num regime melhor. A história que se segue é um drama português e teve consequências no atraso de Portugal que ainda hoje sentimos.Há 100 anos dois homens embuídos de uma fé poderosa em promessas de amanhãs de progresso e felicidade lançam-se sobre a carruagem do Rei D.Carlos mantando-o e matando o Principe Real, D.Luiz Filipe. Vão numa missão de morte que sabem que também os inclui. Um gesto assassino é a forma que encontram para dar sentido a vidas vazias, exorcizar frustrações, extravazar ideais carregados de fanatismo, alcançar notorieades de outro modo impossíveis. Estes matadores foram a mão de gente bem posta. Em tudo os ingredientes dos suicidas políticos dos tempos modernos.
Em 1906 a Monarquia portuguesa está num marasmo político. Alternam no poder dois Partidos – o Partido Regenerador e o Partido Progressista - com chefes eloquentes mas tíbios, competindo pelo poder de gerir teias de interesses na distribuição de cargos públicos e favores económicos.
Emergem deste marasmo três Partidos que assumem posições de rotura. O Partido Regenerador-Liberal, de João Franco, o Partido da Dissidência Progressista, de José de Alpoim, ambos monárquicos, e o Partido Republicano. Os republicanos vão mais longe que os outros no levantar dos ânimos: eles conhecem e divulgam um passe de magia que salvará a Pátria: substituir a Monarquia pela República.
O Rei D.Carlos percebe que manter o marasmo é alargar o espaço político destes magos e opta pela mudança. Há eleições em Agosto de 1906 e delas resulta uma maioria e um acordo político entre o Rei, João Franco e Luciano de Castro, o chefe dos Progressistas. É nomeado para Primeiro-Ministro João Franco, um homem que já se destacara pela sua frontalidade e coragem. Mas os Progressistas rompem o acordo e João Franco apresenta a demissão ao Rei dado que nenhuma das suas reformas consegue ser aprovada no Parlamento. O Rei não cede. Em Maio de 1907 dissolve o Parlamento e manda preparar novas eleições. Em Dezembro de 1907 o Rei marca as eleições para Abril de 1908. João Franco governa há sete meses sem o Parlamento e pelo calendário eleitoral ainda governaria mais quatro meses dessa forma, pelo que as oposições o qualificam de ditador.
Sobe então a ira das oposições monárquicas e republicanas contra o Rei e o Primeiro-Ministro. É certo que era comum um Primeiro-Ministro governar com o Parlamento fechado no intervalo das sessões parlamentares, mas desta vez pressente-se que das eleições resultará um terramoto político. Os Partidos do rotativismo odeiam João Franco porque ele vai por fim a um equilíbrio e a redes clientelares de interesses que duram há décadas. Alpoim e o seu Partido da Dissisdência Progressista odeiam João Franco porque queriam ter sido eles os escolhidos pelo Rei para protagonizar a mudança. O Partido Republicano odeia João Franco porque João Franco representa a mudança pela reforma, e se o país muda dentro do Regime pela ação conjunta do Rei e de João Franco, então fica esvaziada a necessidade de mudar pela instauração da uma República. Por extensão, quem não gosta de João Franco agora também não gosta de D.Carlos, pelo menos enquanto João Franco for o seu Primeiro-Ministro.Os monárquicos de Alpoim e os republicanos querem evitar as eleições e conluem-se para uma revolta. Alpoim imagina derrubar João Franco, depor D.Carlos e ser Primeiro-Ministro de D.Luiz, que subiria ao trono.
Os monárquicos financiam a compra de armamento, os republicanos preparam a revolta e arregimentam os civis que a executará. Os preparativos já vão adiantados quando os republicanos informam Alpoim que do golpe resultará a proclmação da República, e não a aclamação de um novo Rei. Para os monárquicos envolvidos é tarde para arrependimentos.
A 28 de Janeiro de 1908, data da revolução, tudo falha. Alpoim foge para Espanha mas os outros cabecilhas monárquicos e republicanos envolvidos na manobra golpista estão presos. Trata-se de mais um golpe tentado pelos republicanos, desta vez com eleições marcadas. O Rei assina em Vila Viçosa o decreto da deportação dos golpistas para as Colónias.
No recaldo emotivo do falhanço há muita raiva e frustração por superar. Entre quem não está detido é decidido um golpe capital no Regime: assassinar o Rei e se possível também João Franco. No dia 1 de Fevereiro de 1908 um grupo de cinco carbonários vai cumprir a missão, mas só dois deles vão embuídos no espírito de sacrificar a própria vida. Na parte da manhã ainda procuram João Franco, mas não o encontram. Resta o Rei que regressa à tarde de Vila Viçosa.
O Rei, que antecipara o seu regresso a Lisboa, chega ao Terreiro do Paço pouco depois das 5. A tentativa de golpe de Estado fora há três dias e há quem ainda tema loucuras. D.Carlos não quer que o povo lhe veja medo e recusa ir de automóvel onde estaria mais seguro por ser fechado e mais veloz. A família real sobe para um landau e segue para o Palácio das Necessidades. D.Carlos, D.Amélia, D.Luiz e D.Manuel estão a descoberto e numa posição isolada, são agora um alvo fácil para qualquer atirador. Ainda a meio do Terreiro do Paço, junto às colunas do lado poente, os dois suicidas aproximam-se da carruagem e matam.
O Rei paga a audácia com a própria vida e com a vida do Principe Real, Luiz Filipe.Os republicanos tinham morto o Rei, mas não tinham conseguido acabar com a Monarquia. Para isso terão de esperar mais algum tempo e contar com a inestimável e preciosa ajuda dos próprios monárquicos.
O post já vai longo e ainda nem chegámos ao mais importante, isto é, os acontecimentos políticos que se seguiram ao regicídio e as consequências que deles resultaram a prazo. Fica para amanhã.
Terça-feira, Janeiro 22, 2008
Reminiscências da Portugalidade em Huelva
Para lá do Odiana, na província espanhola de Huelva, há um legado português desconhecido: alguns vocábulos portugueses, os melhores mareantes de Espanha, e o nome de um rio, o Odiel.A província espanhola de Huelva faz fronteira com Portugal no extremo sul. A cidade de Huelva fica a 50km da fronteira portuguesa. Existem nesta província reminiscências de Portugal geralmente ignoradas.
Na região de Huelva estão presentes no falar das gentes palavras únicas que não são usadas em mais nenhum lugar de Espanha. Tratam-se de palavras portuguesas, apesar tal facto ser geralmente ignorado pelos seus próprios falantes e por outros espanhóis que as tomam por localismos.
Os exemplos mais significativos são:
(localismo/portuguesismo ; palavra correspondente em Espanhol)
Abanador ; Sopillo
Cincho ; Ensella
Cotovia ; Cotojada
Fechar ; Cerrar
Fechadura ; Cerradura
Tojo ; Aulaga
Mas o mais interessante e curioso dos lusismos de Huelva é nome de rio: Odiel. O rio Odiel nasce na serra de Aracena e desagua na ria de Huelva. Esta designação atribuída a um rio é estranha à Língua castelhana. É consensual que se trata de um lusismo, pois é na Língua portuguesa que os nomes com origem árabe de rios começam por Od ou Odi.
Vejamos qual a razão para estes lusismos, qual a sua origem.
Um Povo e uma Língua Comuns
Antes da reconquista cristã alcançar o Sul, pensa-se que os habitantes do Algarve e os da costa de Huelva pertenceram ao mesmo grupo populacional e cultural. Os pescadores e outros mareantes da atual costa de Huelva pertilhavam as artes de pesca e de navegação com os homens do mar algarvios. Eram, afinal, os descendentes das tribos connii predominantes do sudoeste da Hispânia pré-romana. Partilhavam também, necessariamente, a mesma Língua, algum dos dialectos do Latim Vulgar que mais tarde se consolidariam nas grandes línguas neo-latinas peninsulares.
Ao contrário do que por vezes se interpreta, a Língua árabe nunca chegou a ser Língua materna da população autóctone da península, nem sequer no Sul. No tempo da ocupação moura, o Árabe era usado de modo limitado pelos povos locais, sobretudo no contato administrativo com o ocupante muçulmano, o que não impediu a incorporação de vários vocábulos no falar dos povos.
A designação Odiel, em parte formada a partir do árabe ainda antes da presença portuguesa no Sul, abona a favor desta teoria identitária das falas do ocidente peninsular. Na verdade, o Galaico-Lusitano, como Língua de fusão dos dialectos latinos de norte a sul do ocidente penínsular, antecede em pelo mais de duzentos anos a fundação de Portugal.
A Separação
Durante a reconquista cristã, Portugal e Leão, e depois Castela, competem pela definição da fronteira comum à medida que vão expulsando os mouros para Sul. A pressão portuguesa sobre a Andaluzia ocidental, a margem esquerda do Odiana, foi sempre notória. Até D.Afonso III, todos os Reis portugueses participaram ou ordenaram incursões militares na zona e controlaram território. D.Sancho I chegou a estar às portas de Sevilha.
Os castelhanos tentaram sempre remeter a fronteira com Portugal para as margens do Odiana. Essa seria uma forma mais segura de conter as veleidades militares de um vizinho que ao tempo era poderoso. Conseguiram parcialmente esse objetivo em 1297, pelo Tratado de Alcanizes, quando as últimas localidades portuguesas na Andaluzia - Arouche (esp.Aroche), Aracena e Aiamonte - foram cedidas a Castela.
Os Melhores Mareantes de Espanha
No início da expansão marítima de Espanha, os seus governantes procuraram homens que se equiparassem aos marinheiros portugueses. Foram encontrá-los às portas de Portugal, na costa de Huelva. Esses homens eram reconhecidos como os mais aptos de Espanha, os únicos que partilhavam as aptidões e qualidades marítimas dos portugueses seus vizinhos.
Assim, tambérm Colombo recrutou na costa de Huelva os marinheiros que o haveriam de acompanhar na travessia do Atlântico em busca da Índia. Este facto resolve a questão de saber porque alguns dos marinheiros de Colombo falavam português, já que não eram portugueses. Tudo indica que há quinhentos anos, na margem esquerda do Odiana, os povos, em especial os que viviam ligados ao mar, partilhavam a língua com os seus vizinhos algarvios.
Para lá do Odiana, na província espanhola de Huelva, há um legado português desconhecido: alguns vocábulos portugueses, os melhores mareants de Espanha, e o nome de um rio, o Odiel.
Quarta-feira, Dezembro 19, 2007
O Dia das Prendas
O Natal mudou. Hoje é cada vez mais a Festa das Prendas, o Dia da Prendas. O Natal cristão está em retrocesso, mesmo entre os cristãos ou as famílias cristãs quer o sejam por convicção, quer o sejam por tradição cultural.O Dia de Natal cristão sobreviveu ao Dia da Família do Positivismo e ao Dia da Árvore do Comunismo. Mas parece que desta vez sucumbe a uma não-ideologia, sucumbe ao consumismo: a verdade é que o Dia de Natal deu lugar ao Dia das Prendas.
A nossa sociedade criou em quase todos uma postura de insatisfação material. Quase todos acham que serão mais felizes se em vez de um automóvel TDI tiverem um TDI Special. Ou se em vez da PSP2 tiverem a PSP3. Uns, depois de terem o TDI Special rapidamente quererão o TDI Super Special. E os que agora tremem de emoção com a PSP3 ? Espere-se um ano, e em breve ansiarão emocionados pela PSP4 como antes tinham ansiado pela 3, que agora é olhada como uma velharia tolerada enquanto não vem a nova possivelmente embrulhada em papel de Natal e com lacinho de prenda.
Ora, ainda bem que existem os TDI Special e as PSP3. E também ainda bem que mais tarde ou mais cedo chegam os TDI Super Special e as PSP4. Mas no fundo, bem lá no fundo, o ter mais um objeto que vem substituir outro, que em breve se quererá substituir por outro, é coisa que só pode satisfazer os tolos.
No consumismo dominante, o objeto, desde que novo, assume um valor que o aproxima da divinização.
O Dia das Prendas não é fruto da celebração da Natureza, nem de uma fé ou cultura religiosa, nem de uma crença ou construção político-ideológica. O Dia das Prendas é um fruto do consumismo levado ao extremo da insanidade pessoal e social.
O Dia das Prendas é deprimente.
O Dia das Prendas oferece aquele espetáculo triste que se generalizou há uns anos e que acontece às 00 horas: toda a gente se lança sobre os objetos novos, aqueles que, supostamente, trarão a felicidade. Com ‘felicidades’ destas, quem precisa de ‘Meninos Jesus’?
Por mim, fico-me satisfeito com as prendas que o Pai Natal deixa na chaminé de madrugada e que só se vêm na manhã de 25. A meia-noite de 24 para 25 é mesmo só para comemorar o nascimento do Menino Jesus. Esse não falha, nem desilude, nem precisa de substituto.
Quinta-feira, Novembro 22, 2007
Os Portugueses Vistos pelos Outros
Em 1836, Charles Napier (1796-1860) publica em Londres ‘An Account of the War Between Don Pedro and Don Miguel’. Tratava-se do relato, na primeira pessoa, da Guerra Civil portuguesa de 1832-34. O autor, oficial da Marinha Britânica, fora um dos vários oficiais estrangeiros intervenientes na guerra, no caso ao lado dos liberais.O livro tem particular interesse pelo facto de conter várias referências ao caráter dos portugueses à luz da percepção de um militar estrangeiro de repente envolvido no ambiente de intriga e de jogos de poder no seio de uma das fações da guerra civil. De tempos a tempos iremos colocar no blog algumas passagens mais relevantes dessas observações.
O relato de Napier foi publicado pela primeira vez em Portugal em 1841 numa tradução de Manuel Joaquim Pedro Codina, reconhecidamente liberal. O tradutor não se exime de colocar várias notas na edição portuguesa, algumas bastante críticas em relação às apreciações de Napier, sobretudo quando ele aponta as faltas de caráter ou outras de alguns políticos e governantes liberais.
Milhares de mercenários estrangeiros participaram nas Guerras Civis portuguesas do século 19. A guerra de 1832-34 foi talvez aquela em que essa participação foi mais relevante. Napier, um oficial da Marinha britânica de reconhecido mérito, é contratado nessa circunstância pela fação liberal.
Em Junho de 1933, com 37 anos, Charles Napier desembarca no Porto, então sob ocupação das tropas liberais vindas dos Açores, cercadas por terra pelas tropas miguelistas. D.Pedro nomeia-o comandante-em-chefe da esquadra liberal.O desempenho Napier na guerra foi notável, mas merece especial destaque o papel que teve no comando e vitória da esquadra liberal sobre a esquadra miguelista no Cabo de São Vicente, logo no mês seguinte ao da sua entrada ao serviço. O curso da guerra mudou após esta manobra naval bem sucedida, e as tropas liberais puderam avançar sobre Lisboa a partir do Algarve, alterando definitivamente o pendor da guerra.
Ainda decorria o conflito quando Charles Napier foi nomeado diretor do Arsenal da Marinha com a incumbência de reestruturar e modernizar este estabelecimento militar. Os entraves colocados à sua ação tanto pelos funcionários do Arsenal como pelos seus inimigos no novo Governo agora instalado em Lisboa impediram-no de cumprir a tarefa. A sua desilusão aumentou pelo facto de nunca ter chegado a receber a quantia prometida pela sua participação na guerra, afinal sorte semelhante à de tantos mercenários que combateram em Portugal. Ainda assim, nunca renegou a sua amizade e admiração por D.Pedro, Palmela e Saldanha. Abandonou Portugal e os seus cargos na Marinha portuguesa logo após a morte de D.Pedro IV, em 1834, com o título de Conde do Cabo de São Vicente.
Charles Napier entrou para a Marinha britânica como voluntário aos 13 anos. Ao longo da sua carreira militar destacou-se em ações de guerra, progredindo rapidamente na hierarquia naval. Já como oficial, comandou importantes vitórias navais para a Grã-Bretanha. Esteve suspenso da Marinha entre 1834 e 36 por ter participado ilegalmente no conflito português. Terminou a carreira militar como Almirante. A sua vida não se restrigiu à Marinha de guerra, foi também deputado ao Parlamento. Era conhecido popularmente por Mad Charley em resultado da sua coragem e imprevisibilidade.
Segunda-feira, Outubro 22, 2007
A União Europeias Faz Falta a Quem?




Islândia, Noruega e Suíça rejeitaram em referendo a entrada na UE. O povo suíço rejeitou também a adesão ao EEE embora os acordos políticos e comerciais entre a Suíça e a UE deixem o país numa situação equiparável à de membro do EEE. O Liechenstein é um pequeno principado largamente integrado na economia suiça que aderiu por decisão política ao EEE.
Quinta-feira, Outubro 11, 2007
'A Revolução Liberal - Os Devoristas'
Saiu em Julho uma reedição de ‘A Revolução Liberal – Os Devoristas’ de Vasco Pulido Valente. A 1a edição é de 1993. Foi reeditado em Maio deste ano mas a procura obrigou a esta 3a edição.Sexta-feira, Outubro 05, 2007
O 5 de Outubro
Para o português comum a I República constituiu sobretudo um liberticídio; a liberdade de um cidadão na Monarquia liberal era maior do que a liberdade de um cidadão da I República. A isto acresceu o caos social e político que percorreu todo o Regime com dezenas de Governos e vários golpes de Estado e tentativas de golpe.
A I República é hoje um mito em retrocesso porque a verdade acaba sempre por prevalecer. O mito é iniciado logo no pós 5 de Outubro. A este respeito, veja-se o postal abaixo publicado na época:
Entre outros episódios retratados nesse postal está a proclamação de República na Praça do Municipio em Lisboa. A praça é representada cheia de povo.No entanto, na foto seguinte pode ver-se a verdadeira imagem da Praça do Município nessa manhã de 5 de Outubro de 1910:
A praça está longe de se poder considerar meio cheia, ao contrário da imagética da propaganda.
Na foto que segue pode ver-se José Relvas na varanda do edifício da Câmara proclamando a República na tal Praça do Município:
Esta foto é famosa, encontra-se por toda a parte. Foi até estilizada por várias vezes. No entanto, esta foto foi está cortada, está parcialmente censurada.
Abaixo pode ver uma foto obtida na mesma ocasião, mas esta está completa, não está cortada, não está censurada:

Nela se percebe que afinal José Relvas proclamou a República a um pequeno ajuntamento de lisboetas, ao contrário da multidão referida na propaganda. Os presentes na Praça no momento da proclamação eram ainda menos do que os da fotografada na foto da Praça mais acima, obtida depois desta.
O mito suportado pela obra de ocultação da verdade e da propaganda está muito aquém da realidade.
Sejamos monárquicos ou republicanos, pouco importa conquanto possamos mudar Regimes e Governos pelo voto. Mas importa que não sejamos alegres trauteadores de mentiras. Importa que não aceitemos mentiras de políticos e propagandistas. Importa também que uma certa gente saiba que não somos estúpidos ou, pelo menos, que não somos todos estúpidos.
Terça-feira, Outubro 02, 2007
Sexta-feira, Setembro 21, 2007
Odiana vs Guadiana
Com a invasão árabe, muitos rios do sul da península tiveram o seu nome alterado pela anteposição da palavra ‘uad’, termo árabe que significa ‘rio’.
Foi o que aconteceu com o rio Annas que passou a ser chamado uad Annas, ou uad Ana. Estas novas designações entraram no uso das populações locais.
Depois disso a anteposição ‘uad’ evoluiu de forma diferente nas línguas neo-latinas da península. Nos dialetos galaico-lusitanos, falados em toda a faixa atlântica, passou a ‘od’, ‘ode’, ou ‘odi’; por sua vez em castelhano passou a ‘guad’ ou ‘guadi’. Esta é a razão porque vários rios e localidades do sul de Portugal começam por ‘od’, tais como Odivelas, Odeleite, Odiáxere. Acontece o mesmo no sul de Espanha, por exemplo, com Guadalquivir, Guadalete, Guadarrama.
O uad Ana não escapou a esta regra. Em Espanha evoluiu para Guadiana, em Portugal para Odiana.
Vejamos então o que fez com que os portugueses esquecessem o nome original do Odiana e hoje o conheçam apenas pelo seu nome espanhol, Guadiana.
Até pelo menos 1580, o Guadiana era oficialmente designado Odiana em Portugal e popularmente conhecido assim. Durante o período dos Filipes, a administração portuguesa impôs a designação Guadiana a Portugal de modo a torná-la uniforme com a designação espanhola do rio. Após a deposição da monarquia estrangeira a designação portuguesa nunca foi reposta. Com o tempo, também o povo foi trocando o nome ao rio acabando por consolidar a mudança.
O uso de Guadiana em lugar de Odiana é um resquício da presença espanhola em Portugal. Infelizmente é também um símbolo de falta de brio nacional. Até quando deixarmos que seja assim.






